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COP30: O Processo Social que Reconectou o Clima às Pessoas

27/11/2025 - Por emiliano milanez graziano da silva
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Enquanto as manchetes globais se perdem nas complexas negociações sobre metas de emissões e financiamento climático, entendo que um legado mais profundo e transformador emergiu da COP30: a reinserção, definitiva e irrevogável, das pessoas no centro do debate sobre as mudanças climáticas. O sucesso desta conferência não será medido apenas em gigatoneladas de carbono, mas no reconhecimento de que não há solução para o planeta que não passe pela justiça social, pelos sistemas alimentares saudáveis e pelo saber dos povos tradicionais e da agricultura familiar.

 

Durante décadas, nosso sistema alimentar global se desconectou radicalmente da natureza. Transformamos a produção de comida em uma linha industrial a céu aberto, marcada pela tripla ou quádrupla monotonia: monoculturas extensas, poucas espécies cultivadas, paisagens homogêneas e uma dieta global padronizada. Os mosaicos produtivos, que outrora coloriam nossas paisagens com biodiversidade e resiliência, deram lugar a longos campos uniformes, vulneráveis e ecologicamente pobres.

 

Contra essa lógica desgastada, a COP30 em Belém se tornou um palco de contrapontos potentes. No coração da Zona Azul, o Restaurante da Sociobio tornou-se um símbolo vivo desse novo paradigma. Ele não apenas serviu mais de 4 mil refeições por dia, mas o fez com um compromisso radical: todos os ingredientes das refeições foram comprados de pequenos agricultores e comunidades próximas, estabelecendo a chamada cadeia curta. O cardápio, composto por comida não-ultraprocessada, sucos de frutas nativas e saladas frescas, era a prova prática de que um sistema alimentar saudável, saboroso e sustentável é possível. Essa iniciativa materializou a decisão governamental de que todos os restaurantes da COP comprariam da Agricultura Familiar, traduzindo o discurso em pratos de comida de verdade.

 

Esse não é um gesto simbólico, mas a semente de uma transformação necessária. Os dados nos confrontam: 92% das cooperativas da Unicafes já desenvolvem ações de sustentabilidade, mostrando que a base produtiva está se movendo. No entanto, ainda há contradições gritantes, como o fato de que 91% do Pronaf na Amazônia Legal ter sido destinado à pecuária, um modelo que pressiona a floresta – onde, inclusive, 32% do desmatamento ocorre dentro de Assentamentos.

 

A solução, como ficou claro na COP, é entender que o trabalho com a Agricultura Familiar é um trabalho territorial. Não se trata de subsidiar, mas de co-criar. Como bem pontuou uma pesquisadora, ao questionar o futuro que os agricultores desejam, a resposta obtida não foi apenas um desejo por tecnologia, mas por lazer, descanso e qualidade de vida. Esse anseio por dignidade é o motor de qualquer transição justa.

 

A presidência brasileira deu clareza à urgência dos financiamentos para adaptação, um tema vital para quem já sente os impactos climáticos no campo. E aqui, aprendemos com o passado: o sucesso do projeto Fome Zero nos ensina que a transformação só é real quando é participativa, com protagonismo dos agricultores, poder público, academia e sociedade civil caminhando juntos. Esta é a essência da sociobioeconomia – um termo que, longe de ser um jargão vazio, representa uma "estante nova para livros velhos", valorizando saberes ancestrais com novas ferramentas.

 

O caminho à frente é desafiador. A agitada Zona Verde, as diversas Casas paralelas promovidas por diferentes movimentos e organizações sociais, Cúpula dos Povos, o Banquetaço e a Marcha Global pelo Clima com mais de 70 mil pessoas mostraram a força mobilizadora da sociedade civil. Mas esta COP também revelou dissonâncias, como a de iniciativas bem-intencionadas mas perdidas em sua agenda, como o caso do patrocínio das latas de água por uma empresa de cervejas. A lição é clara: as pessoas se mobilizam pela comida de verdade, não por soluções de marketing.

 

É crucial lembrar que cada dólar investido em prevenção economiza pelo menos cinco em perdas e danos. E, no entanto, ainda não há dinheiro suficiente no Fundo de Perdas e Danos da ONU. A conta não fecha se não investirmos na raiz do problema.

 

A COP30 nos deixou uma lição indelével: daqui em diante, não será mais possível falar de clima sem incluir as comunidades e sistemas alimentares saudáveis. Apoiar a agroecologia e reconectar nossos sistemas alimentares à natureza não é um tema paralelo; é a agenda central para combater a fome e garantir um futuro habitável. A COP deve ser vista não como um momento, mas como um processo. E o processo, felizmente, agora tem o rosto, as mãos e a voz de quem alimenta o mundo: o pequeno agricultor.

 

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