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ATENÇÃO: Acordo Mercosul-EU: o "presente envenenado" que querem vender como vitória! (Hulq, F-99)

16/01/2026 - Por marco lorenzzo cunali ripoli
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Por Marco RIPOLI e Paulo HERRMANN (@phadvisorygroup)

 

O anúncio de que o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia caminha para sua ratificação final em 2026 vem sendo celebrado pelo governo brasileiro e por parte relevante da mídia como um marco diplomático e econômico. A narrativa predominante sustenta que o tratado consolidaria o Brasil como grande exportador global, ampliando o acesso a um suposto mercado de “780 milhões de consumidores” e impulsionando o crescimento das exportações, especialmente do agronegócio.

No entanto, uma análise estratégica, desprovida de entusiasmo político e ancorada em dados, sugere uma realidade mais complexa — e potencialmente menos favorável. Os benefícios anunciados mostram-se limitados quando confrontados com os riscos estruturais, regulatórios e industriais que o país pode assumir no médio e longo prazo. Este artigo propõe justamente essa leitura crítica: não para negar o valor do comércio internacional, mas para questionar se o acordo, tal como desenhado, serve de fato aos interesses estratégicos do Brasil.

 

1. O Brasil já exporta — e exporta muito — sem o acordo

Antes de qualquer análise prospectiva, é fundamental reconhecer um ponto frequentemente ignorado no discurso oficial: o Brasil já é um dos maiores exportadores globais, em especial no agronegócio, sem a necessidade de um acordo de livre comércio com a União Europeia.

Em 2024, as exportações brasileiras do setor agroalimentar atingiram aproximadamente US$ 164,4 bilhões, respondendo por cerca de 49% das exportações totais do país — um dos maiores patamares históricos já registrados. O Brasil lidera, com folga, mercados globais estratégicos como soja, café e suco de laranja, abastecendo destinos que vão da Ásia ao Oriente Médio, além da própria Europa.

Em 2023, as exportações brasileiras para a União Europeia somaram cerca de US$ 46,3 bilhões, equivalentes a aproximadamente 13,6% do total exportado pelo país. Trata-se, majoritariamente, de commodities agropecuárias e minerais — produtos primários ou de baixo valor agregado.

Esse desempenho evidencia um ponto central: o Brasil já acessa o mercado europeu com relativa eficiência e competitividade. O fato de a União Europeia ser um parceiro comercial relevante não implica, automaticamente, que um acordo negociado sob regras assimétricas produzirá ganhos exponenciais adicionais.

 

2. O mito do “mercado de 780 milhões” e a realidade demográfica europeia

Um dos principais pilares retóricos do acordo é a suposta abertura de um mercado consumidor de 780 milhões de pessoas. O número, além de impreciso, é economicamente enganoso.

A União Europeia, atualmente composta por 27 países, possui cerca de 449 milhões de habitantes. Mais relevante do que o tamanho absoluto da população, contudo, é sua trajetória demográfica. O bloco enfrenta uma das mais acentuadas quedas de natalidade do mundo desenvolvido, com envelhecimento acelerado da população e crescimento vegetativo negativo em diversos países.

Do ponto de vista econômico, essa dinâmica implica estagnação — ou mesmo retração — da demanda interna no médio e longo prazo, sobretudo em bens industriais e duráveis. Ou seja, exatamente nos segmentos em que o Brasil estaria mais exposto à concorrência de importados europeus.

A narrativa de um mercado europeu em expansão, portanto, não se sustenta à luz dos dados demográficos e tende a servir mais como argumento político do que como fundamento econômico.

 

3. O falso livre comércio: salvaguardas e protecionismo regulatório

Uma leitura técnica do acordo Mercosul–União Europeia revela que ele está longe de representar um regime genuíno de livre comércio. Ao contrário, o texto incorpora um conjunto sofisticado de salvaguardas que preservam setores considerados sensíveis para a economia europeia, em especial aqueles que competem diretamente com o agronegócio brasileiro.

Salvaguardas automáticas por crescimento de importações

O Parlamento Europeu aprovou mecanismos que permitem à Comissão Europeia suspender preferências tarifárias caso as importações provenientes do Mercosul cresçam, em média, mais de 5% ao ano por determinado período. Inicialmente, discutia-se um limite de 10%, posteriormente reduzido, sinalizando a baixa tolerância europeia a qualquer expansão mais dinâmica das importações.

Na prática, isso significa que ganhos legítimos de competitividade do Brasil podem ser neutralizados rapidamente por instrumentos unilaterais.

Quotas restritivas para produtos sensíveis

O acordo também impõe quotas rígidas para produtos como carne bovina, açúcar, aves e etanol. Uma vez ultrapassados esses limites, aplicam-se tarifas adicionais ou barreiras administrativas, restringindo justamente os setores em que o Brasil apresenta maior vantagem competitiva global.

Barreiras não tarifárias

Somam-se a essas restrições as barreiras sanitárias, fitossanitárias e ambientais. Embora apresentadas como critérios técnicos, tais exigências frequentemente operam como instrumentos de proteção indireta, com histórico conhecido de suspensões pontuais de exportações brasileiras por razões sanitárias.

 

4. Comércio pouco dinâmico e um teto ainda mais baixo

A evolução recente das exportações brasileiras para a União Europeia ajuda a desmontar a narrativa de expansão acelerada:

  • 2020: €27,7 bilhões
  • 2021: €33,8 bilhões (+22,0%)
  • 2022: €42,7 bilhões (+26,4%)
  • 2023: €43,1 bilhões (+1,0%)
  • 2024: €43,6 bilhões (+1,2%)
  • 2025 (estimado): €44,9 bilhões (+3,0%)

Embora o CAGR entre 2020 e 2025 seja de aproximadamente 10,5% ao ano, esse número é fortemente distorcido pelos anos pós-pandemia e pela alta excepcional dos preços das commodities. Desde 2023, o crescimento estrutural tem oscilado entre 1% e 3% ao ano — abaixo, portanto, do próprio gatilho de salvaguarda europeu.

A contradição é evidente: mesmo diante de um comércio pouco dinâmico, a União Europeia impõe limites rigorosos que podem ser acionados por flutuações conjunturais, não por distorções reais de mercado.

 

5. A contradição central: um teto baixo para um comércio já pouco dinâmico

Essa combinação revela uma assimetria preocupante:

  • O comércio Brasil–UE não apresenta, hoje, um crescimento estrutural robusto;
  • Ainda assim, a UE impõe um teto de crescimento extremamente baixos, que pode ser acionado mesmo por flutuações conjunturais de preço ou volume;
  • Caso o Brasil venha a ganhar competitividade real em setores específicos — especialmente agroindustriais — o mecanismo de salvaguarda pode neutralizar rapidamente esses ganhos.

Em outras palavras, o acordo não foi desenhado para estimular uma expansão contínua e sustentável das exportações brasileiras, mas sim para controlar e limitar essa expansão, preservando os interesses produtivos e políticos europeus.

O conjunto de salvaguardas, quotas e barreiras não tarifárias demonstra que o acordo Mercosul–UE não representa um “bilhete livre” para o Brasil exportar mais, mas sim um arranjo altamente condicionado, no qual:

  • A UE mantém pleno controle sobre o ritmo e o volume das importações;
  • O Brasil assume compromissos amplos sem garantias proporcionais de acesso efetivo ao mercado;
  • Qualquer avanço mais relevante pode ser interrompido por instrumentos unilaterais europeus.

Esse desenho reforça a percepção de que o acordo, tal como estruturado, protege o centro industrial europeu e limita a periferia exportadora de commodities, perpetuando uma relação assimétrica — exatamente o oposto do que se espera de um acordo moderno e equilibrado de livre comércio.

 

6. Estrutura comercial assimétrica e vulnerabilidades industriais

A relação comercial atual entre Mercosul e União Europeia não parte de uma base equilibrada. Cerca de 81% das importações europeias oriundas do Mercosul são produtos primários. Em sentido inverso, a Europa exporta ao Brasil bens manufaturados de maior valor agregado — máquinas, equipamentos, produtos químicos e farmacêuticos.

Essa assimetria reforça uma lógica histórica: o Brasil exporta commodities e importa tecnologia. Sem políticas corretivas, o acordo tende a aprofundar essa especialização regressiva.

 

7. A ausência de política industrial: o risco silencioso

A crítica central ao acordo não é que ele eliminará as exportações brasileiras — elas continuarão existindo —, mas que ele avança sem estar ancorado em uma política industrial robusta.

Sem um plano consistente de reindustrialização, que inclua redução do custo do capital, modernização logística, incentivos à inovação e desenvolvimento de setores de maior valor agregado, o Brasil abre seu mercado industrial à concorrência externa sem instrumentos adequados de transição competitiva.

Nesse contexto, o acordo pode se tornar um vetor de desindustrialização, contrariando frontalmente o discurso de desenvolvimento sustentável e crescimento de longo prazo.

Conclusão: menos celebração, mais estratégia

Não se trata de negar que o Brasil possui enorme potencial exportador, ou que o agronegócio é um motor de nossa economia globalizada. O país tem demonstrado capacidade de competir em mercados complexos e diversificados, e sua presença em cadeias globais de valor é louvável.

Contudo, o acordo Mercosul-UE, na forma que está sendo celebrado, ignora o contexto demográfico europeu, protege de forma explícita setores agrícolas sensíveis do bloco europeu e não contrapõe adequadamente o Brasil com uma política industrial e de modernização competitiva clara.

O risco é que o Brasil seja colocado em uma posição de fornecedor de commodities em troca de abertura de mercado que beneficia a indústria europeia muito mais do que a nossa própria base industrial, ao mesmo tempo em que o mercado consumidor europeu tende a estagnar por motivos demográficos e de estrutura econômica interna.

Antes de aplaudir como uma vitória incontestável, é necessário que debates informados sobre políticas industriais, competitividade estrutural e salvaguardas comerciais sejam amplamente incorporados ao discurso público e às decisões de política econômica. Só assim poderemos transformar acordos comerciais em instrumentos que realmente fortaleçam o Brasil de forma sustentável e estratégica nas próximas décadas.

O agro não para!

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Marco Ripoli é PhD. em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

Paulo Herrmann é CEO da PH Advisory Group e Dr. H.C.

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